| Empresa |
Freios Varga |
| Setor |
Autopeças |
| Data de Início |
31-Out-95 |
| Data de Término |
20-Mai-99 |
| Entrada |
Mercado |
| Saída |
Negociação com controladores |
Definições:
Data de Início: primeiro lote de ações comprado.
Data de Término: último lote de ações vendido. |
Desde o início da atividade de gestão, em 1988, encarávamos Freios Varga como uma das empresas mais bem administradas e posicionadas no setor de autopeças brasileiro. O histórico financeiro era sólido e o negócio tinha uma virtude que chamava atenção: embora vendesse peças para produção de carros novos, a maior parte da receita provinha de vendas para manutenção.
Por isso, durante as épocas de desaquecimento econômico, quando as vendas de carros novos caíam, a empresa desfrutava de aumento de receita. Afinal, os motoristas continuavam retirando seus carros da garagem diariamente. A característica conferia ao negócio proteção natural contra problemas macroeconômicos.
Em 1995, após queda no preço das ações, finalmente conseguiu-se montar posição. Firmou-se a partir de então um relacionamento estreito e de confiança recíproca com a administração e com os acionistas controladores.
A empresa seguia práticas de governança corporativa raramente observadas no mercado brasileiro. Recomprava ações constantemente e pagava metade do lucro sob forma de dividendos. A abordagem cooperativa da IP produzia sugestões sobre alocação de capital, relação com investidores, pagamento de dividendos e outros assuntos importantes. A administração da empresa recebia muito bem este tipo de postura participativa.
Em janeiro de 1998, Varga anunciou que seu sócio estratégico, LucasVarity, havia comprado todas as ações ordinárias pertencentes aos acionistas controladores. Para a LucasVarity, não fazia sentido manter Freios Varga como empresa de capital aberto, diante do acesso a financiamento mais barato no exterior. Rapidamente a empresa suspendeu seu programa de recompra de ações, mudou a política de dividendos e reduziu a comunicação com o mercado.
As ações de Varga, que já haviam caído de um patamar de R$ 65 para R$ 45 por causa do pânico gerado pela crise asiática, continuaram sua trajetória descendente até atingir R$ 18.40 – sendo prejudicadas também pela crise russa. Isso em apenas um ano. Entendendo que os preços estavam excessivamente depreciados, a IP praticamente dobrou sua posição.
O preço da ação logo começou se recuperar. O problema de governança corporativa da empresa, no entanto, permanecia. A IP procurou representantes da LucasVarity no Brasil, nos EUA e no Reino Unido. Descobriu que a situação dos acionistas minoritários de sua pequena subsidiária brasileira não seria prioridade no curto prazo. O objetivo de LucasVarity era fechar o capital de Freios Varga.
A estratégia então foi concentrar esforços em convencer outros acionistas minoritários a se unir à IP. A Lei das S.A. estabelecia que, para fechar o capital da empresa, o novo controlador precisaria do consentimento de acionistas detentores de pelo menos dois terços das ações em circulação no mercado.
Em novembro de 1998, quatro grandes acionistas minoritários concederam procurações à IP para representar seus interesses. Eram eles Previ, Banrisul, CEEE e BNDES. Foi criado um fundo com as ações destas três instituições - somadas às do IP-Participações - cujo único objetivo era negociar uma saída com LucasVarity. A aliança que se formou respondia por quase 60% das ações preferenciais de Varga.
Depois de mais de um ano de reuniões e um longo processo de negociação, a empresa concordou em recomprar todas as ações preferenciais. O bloco de ações do nosso grupo foi avaliado em R$ 25 milhões, ou R$ 80.10 por ação. Ainda havia um desconto em relação ao valor pago pelo controle, mas o preço era bastante razoável. Estava 17% acima do pico da ação, ao passo que o mercado havia caído 10% em idêntico período.
O caso Varga revela aspecto importante de investimentos em ação. Freqüentemente, o preço de uma ação pouco tem a ver com o valor intrínseco do negócio da empresa. Movimentos exagerados do mercado às vezes apresentam oportunidades excelentes de compra. Ao investidor, cabe manter sangue frio e aproveitar. O conhecimento profundo dos negócios é fundamental nesse sentido, já que é a única forma de se saber os reais riscos envolvidos.
Este caso, como o de Lojas Renner, revela também o valor de uma atitude pró-ativa de investidores alertas, conscientes de seus direitos e dispostos a se unir para fazer valer estes mesmos direitos.
